sexta-feira, 27 de dezembro de 2013


Texto de Carolina Pombo

Nesse post quero falar da minha relação com o Programa Bolsa-Família, de como o conheci e o vejo ainda hoje. Estudei a história da implantação desse programa no Brasil, durante o mestrado, quando analisei as falas de senadores, de 2003 a 2006, primeiro mandato de Lula, pra saber os nexos que eles faziam entre cidadania e política social.Ter direitos sociais é uma forma de construção de cidadania? Esses direitos são pra quem? Como são implantados? O que isso tem a ver com as mães?
 
Bolsa-Escola e suas heranças
Vi uma característica paradoxal na história do Bolsa-Família: ele é herdeiro de uma concepção conservadora de direitos sociais, aquela que parte de uma ideia meritocrática: “melhor ensinar a pescar do que dar o peixe”, e ao mesmo tempo é o pontapé para a construção de um sistema de proteção social mais amplo. Antes dele, já tinham sido criados diversos mini-programas como “bolsa-leite”, “cheque-cidadão”, em algumas cidades. Foram iniciativas locais usadas como moedas eleitorais. Depois, o programa Bolsa-Escola unificou as ideias espalhadas nos municípios brasileiros e deu um peso político e social muito maior ao que chamamos de “política de transferência de renda”. Com a mesma ideia meritocrática, indo na onda da recomendação do FMI para os países latinoamericanos em desenvolvimento, o governo FHC diminuiu as burocracias mas reforçou a idéia das contrapartidas: pra receber o benefício, a família tinha que provar que suas crianças estavam matriculadas na escola.

A curta tradição de distribuição de renda através desses programas vinha recheada de desconfiança e vigilância sobre as famílias pobres. Para ser uma mãe beneficiária do Bolsa-Escola, a mulher tinha que ser altamente vulnerável (não podia ter a carteira de trabalho assinada), mãe, e ao mesmo tempo responsável exclusiva pelo desenvolvimento de sua prole (manter cartão de vacinação e matrícula escolar em dia). A preocupação com a matrícula escolar estava diretamente relacionada ao uso do IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) pelas organizações internacionais. O Brasil precisava urgentemente galgar posições nos rankings do IDH e ser visto como uma promessa real de crescimento econômico com diminuição da pobreza para receber os créditos das instituições financeiras e investimentos de multinacionais.
No final da década de 1990, já era fato reconhecido, pela avaliação de diferentes programas sociais na américa latina, que as mulheres tinham mais tendência a usar o dinheiro para comprar alimentos para toda a família, e os homens, por sua vez, tendiam a usar em benefício próprio. Por isso que a titularidade desse “novo” direito social passou a ser majoritariamente feminina. Mas ainda não se fazia uma contextualização sobre as relações de gênero.

Imagem de Bruno Spada/Divulgação Ministério do Desenvolvimento Social


A idéia da renda básica de cidadania
Paralelamente a esse discreto crescimento de direitos sociais, movimentos ligados a uma ideologia da proteção social como direito universal, ou seja, para tod-a-o-s, tentavam emplacar programas sociais um pouco diferentes. O Bolsa-Família era uma proposta inserida no Fome Zero e ligado à Lei da Renda Básica de Cidadania. Esse programa tinha um pé na seletividade dos programas de distribuição de renda dos governos anteriores, porque vinha prioritariamente para acabar com a pobreza extrema, e ao mesmo tempo apontava para a construção de um sistema de proteção social universal. A Renda Básica de Cidadania é uma lei que determina que todas as pessoas devem participar dos ganhos financeiros do país, através de um benefício financeiro mínimo igual – que para alguns teria apenas um efeito simbólico, mas para outr-a-o-s teria um efeito material importante. Ela é um pontapé para a formação de uma sociedade que prioriza a igualdade e a solidariedade.
 
Durante o mestrado (resultados apresentados em artigo), tive a oportunidade de perceber como o Fome Zero e a Renda Básica de Cidadania foram sendo descolados do Progama Bolsa-Família, nos discursos dos senadores que nos representavam na ocasião e na mídia de maneira geral. Enquanto o autor da lei, o senador Eduardo Suplicy, trazia especialistas europeus para trocar experiências sobre programas parecidos em seus países, a maior parte de seus pares, seja de partidos de esquerda seja de direita, se ausentava desses eventos e enfatizava a preocupação de combater a miséria “sem incentivar a dependência”. As contrapartidas continuaram a ser exigidas pelos políticos dos partidos de centro-direita. Lembro bem de um breve “escândalo” midiático quando o governo Lula retirou completamente essas exigências, mantendo apenas a seleção com base na renda per capita – muita gente reclamou, no plenário e na tv – e o governo se desculpou, dizendo que fora “um engano”. Até hoje eu não compro a ideia do engano, porque, no fundo, a motivação do programa era justamente vencer essa ideologia meritocrática. De qualquer forma, o Bolsa-Família se manteve com apoio de todos os lados, inclusive das organizações internacionais, tornando-se fundamental na ampliação de direitos diversos, principalmente para mulheres e crianças. Já existem pesquisas conclusivas sobre o ganho de saúde e educação promovidos diretamente pelo acesso ao benefício. Ou seja, ganho de cidadania.
 
Quem ganha o Bolsa-Família também quer trabalhar e fazer planejamento familiar
Uma vez, eu queria contratar uma mãe de duas meninas para trabalhar como empregada doméstica na minha casa mas ela dizia que preferia que eu não assinasse sua carteira, senão perderia o benefício do Bolsa-Família. Fiz uma pesquisa básica no site do Ministério do Desenvolvimento Social e descobri que a seleção das beneficiárias não era assim tão simples. Algumas variáveis diferentes entram na conta, e não se restringem ao valor absoluto do salário nem a ter ou não a carteira assinada. Percebemos, no fim das contas, que se ela recebesse seu salário corretamente com os direitos trabalhistas relacionados, valeria mais a pena ter sua carteira assinada do que trabalhar na informalidade. Ela perdeu uma parte do benefício, mas passou a ter uma condição de vida melhor, sendo incluída também no FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço), outro direito social com base trabalhista. Percebi que, ao longo dos anos, o BF foi melhorando sua forma de seleção e acompanhamento, criando programas transversais de inclusão social, como as estratégias de formação profissional, e as novas formas de cálculo do valor a receber, que agora não dependem apenas da existência de menores de idade na família, e que passaram incluir dependentes de até dezessete anos. A titularidade continua a ser preferencialmente feminina, mas agora, já há uma discussão mais aprofundada sobre os impactos nas relações de gênero. Desde seus primeiros anos de implantação, o BF cresceu muito, e tem sido alvo de vários estudos que apontam resultados muito positivos. O problema do conflito entre inserção profissional x benefício social não é causado diretamente por  uma suposta “dependência” das beneficiárias, mas principalmente pela falta de informação sobre quem tem direito e como tem direito ao recurso.

A mesmo sabendo que o BF também é atribuído a indivíduos que moram sozinhos, gostaria de enfatizar a importância desse programa para as mães de crianças pequenas. A palavra “família” no título não é atoa e nem deveria ser usada para se cobrar e vigiar cada vez mais essas mulheres, mas pode ser uma forma de reconhecimento que essa célula social é fundamental para a organização do tempo, das práticas e dos valores dos indivíduos. Uma criança que nasce numa família pobre, numa região de moradias precárias, de raras opções de creches e escolas, tem muito mais chance de manter-se nessas condições do que o risco que uma criança rica tem de tornar-se um-a adult-a-o pobre. Uma mãe que vive nas mesmas difíces condições, e tem que articular tempo para pré-natal, amamentação, maternagem e trabalho remunerado, tem também muito menos possibilidades de crescer profissionalmente, de participar da política e das decisões que afetam diretamente sua vida. Ter esse benefício pode ser então o começo do reconhecimento de seu trabalho enquanto mãe, de seu tempo dedicado ao cuidado da família – e uma remuneração por essa função social. Isso não impede que futuramente tenhamos benefícios para ambos os pais, como as licenças parentais já existentes em alguns países que estimulem uma divisão mais igualitária do trabalho doméstico. Portanto, o mito de que as mulheres pobres terão mais filhos para ganhar o Bolsa-Família não se confirma na realidade. Essas mulheres estão se sentindo mais incluídas no sistema de saúde e social, tendo mais acesso a programas de planejamento familiar e saúde reprodutiva (ver também reportagem recente no The Guardian – em inglês).

E então, o que fazer daqui pra frente?
O momento agora não é de diminuir o alcance do BF, nem de focalizar nas contrapartidas individuais. O momento é de expandir e divulgar esse conceito: de que cada cidad-ã-o deve participar dos ganhos de riqueza do país. A injustiça da reprodução da pobreza e da desigualdade de oportunidades tem que ser superada, pra que os direitos sociais sejam, de fato, a base de uma sociedade mais harmônica. Esse é o princípio dos Estados de Bem Estar Social europeus. Na maioria deles já existem programas de renda básica, que costumam ser, inclusive, unanimidade entre liberais e conservadores, socialistas e capitalistas. Outra coisa que já me parece consenso por aqui é a inclusão da quantidade e idade das crianças no cálculo do valor dos benefícios. Em países com Estados Socias fortes, assume-se que se você melhora as oportunidades de nascimento e desenvolvimento das crianças, você melhora também as condições de vida de suas mães e seus familiares, de maneira geral. Então, não investir em políticas sociais acaba sendo muito mais caro para a sociedade do que expandir os programas que estão dando certo. Sobre as contrapartidas, eu ainda tenho várias críticas. Acho lamentável que a Renda Básica de Cidadania esteja ainda muito longe dos discursos que defendem a expansão do Bolsa-Família. Acho lamentável que exija-se das mães a comprovação de que estão cuidando devidamente de seus/suas filh-o-a-s para que tenham acesso a esse direito. Ainda paira uma desconfiança sobre as famílias pobres. Mas, eu acredito que podemos transformar essa meritocracia que ainda impreguina nossas políticas sociais.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

A Barbie, gafes e questões feministas

 Texto de Bárbara Diniz

Há alguns dias semana cometi uma gafe e magoei uma pessoa muito querida. No final das contas, eu fiquei muito magoada com o resultado final (eu não queria magoar ninguém), mas também muito tranqüila com minha tomada de decisões.

Eu estudo cultura de paz e ações políticas de não-violência, em que eu insiro meu tema central, mediação de conflitos. No meu objeto de estudo, em escolas públicas. E nesse ponto preciso, mais uma vez, esclarecer que o conceito com o qual trabalho não é aquela “paz pacífica”, com todos vivendo em harmonia, meditando e trazendo “luz ao mundo”.

A minha paz (e a de quem lida com questões de direitos humanos) envolve organização social, movimento, ações políticas efetivas e busca por justiça social (em seu mais amplo aspecto). É sim, uma paz de luta. Mas, além disso, ela também envolve a “paz cotidiana”, a “micro-paz”, as pequenas ações do dia a dia que contrariam o status quo. Isso significa que talvez a minha principal militância seja como organizar minha vida para tentar chegar um pouco perto dessa utopia. Coisas como quem lava a roupa ou a louça em casa, quem limpa o banheiro, quem acorda de madrugada para atender a filha e como vamos educar essa filha envolvem essa militância. E as questões de gênero, nessa educação, são primordiais em todo esse processo.

Mariel Clayton, fotógrafa canadense, cria cenários realistas com Barbies em cenas que fogem do glamour típico do imaginário da boneca. Imagem: divulgação.
 
Não é possível pensar numa cultura de paz quando metade da população trabalha o triplo para receber metade e gastar o dobro do que a outra metade e ainda é culpada por tudo de errado. Sim, eu estou falando das mulheres, que trabalham fora e ainda tem de cuidar de casa, marido e filhos, gastar sempre mais porque possuem os “gastos com beleza” (e por acaso homem “precisa” usar meia calça, maquiagens, tinturas de cabelos e manicure?!) e qualquer coisa de errado com os filhos tem de ouvir: “Cadê a mãe desse menino?” ou em caso de estupro aguentar “mas ela provocou”. Ah, sim, e no caso do divórcio elas ficam com os filhos e todos os gastos que isso representa e eles com o desconto no imposto de renda por pagar a pensão…

Dessa forma é que desde que minha filha nasceu eu tenho vivido na corda bamba entre as questões feministas que me são caras, mas não são o padrão social, e o que a sociedade espera da educação de uma menina, que mantém a função da mulher como inferior ao homem. E nessa questão o brincar, o brinquedo, são um item muito importante, afinal, para uma criança, são as brincadeiras que colocarão os papeis a serem desempenhados no futuro, são elas que construirão o imaginário social, é por meio da brincadeira que ela digere o mundo à volta, lida com ele e o dá sentido, para então nele se inserir. É claro que a brincadeira não é o único quesito, mas é um deles, e um muito importante.

Cenário criado por Mariel Clayto. Imagem: Divulgação


E então dentro dessas preocupações que, um dia, encontro minha filha, de 2 anos, brincando com uma Barbie que ela ganhou… Sim, eu fiquei atônita e inicialmente sem reação. O que fazer?

Bem, antes é preciso deixar claro que ser contra a Barbie não é exatamente uma causa feminista. Grupos conservadores e religiosos também podem ser contra a boneca, ao passo que talvez uma feminista possa considerar seu aspecto positivo: uma mulher que trabalha fora (que tal a Barbie médica? ou a domadora de golfinhos? ou a engenheira de informática?) e tem sucesso…

Mas não deixa de ser um ponto feminista a questão de a boneca reforçar os estereótipos femininos em vigor. Ou seja, por trás de sua aparente liberdade econômica está todo um sistema que em nada mudou na sua relação com as mulheres. Conforme Fernanda Roveri ela foi uma boneca criada para ADOLESCENTES aprenderem a se comportar como damas, ainda na década de 40, a partir do visual de um desenho pornô alemão.
Por meio da Barbie não podemos negar que o aprendido é o ideal de beleza, que foca na magreza exagerada, nos seios fartos, no cabelo loiro e liso e na necessidade de se estar sempre maquiada. A imagem que se forma é que para se dar bem (ter a casa da Barbie, o carro da Barbie, as amigas da Barbie, o namorado da Barbie), as meninas devem ser sempre sorridentes, maquiadas, de salto alto (mesmo de maiô!) e fúteis (ainda que sejam médicas), tudo isso sem esquecer seu aspecto consumista (roupas, acessórios, uma roupa para cada ocasião e tudo o mais relacionado à Barbie), inerente ao mundo que se almeja alcançar por meio da boneca. Mas se a mulher não alcança o mundo Barbie, tudo bem, anorexia, bulimia, bisturis, botox e antidepressivos estão aí para isso… Sem falar em preconceito e racismo…

Cenário criado por Mariel Clayton. Imagem: Divulgação
 
É dentro dessa perspectiva que eu vi minha filha de 2 anos brincando de Barbie, quando estou fazendo esforços por uma educação que rompa com esses paradigmas…. O chão se esvaiu, foi embora e eu sequer posso dizer quem estava na hora ao meu lado. Meu cérebro simplesmente ficou pensando, o que fazer, o que fazer, o que fazer… Eu não poderia fazer como fiz antes com outros brinquedos – simplesmente trocá-los por brinquedos que eu considerasse mais apropriados (ela já estava brincando). Eu não poderia guardar a boneca para depois repassar para outras crianças – eu não poderia repassar um brinquedo que fosse contra os meus valores. Também não poderia simplesmente tirar o brinquedo da mão dela – ou o efeito até poderia ser pior. Foi então que eu tomei a liberdade de falar com o adulto de plantão, de forma séria e calma: sinto muito, mas esse brinquedo não vai para casa, não. Não concordo que uma criança de dois anos brinque com essa boneca.

É claro que houve confusão. É claro que negar um presente é falta de educação. Mas é claro também que, graças a nossa sociedade, eu sou a única responsável pelos cuidados com minha filha (ainda que não tenha voz nos debates relacionados à educação de meus filhos, diante de todos os responsáveis e especialistas em educação). E justamente porque todos são contrários é que eu é que preciso lutar por uma educação feminista. Se eu tivesse um filho, ele não teria armas de brinquedo. Como eu tenho uma filha (e sou a favor de que todos brinquem de bonecos) pelo menos ela não teria uma Barbie (brincar é outra história, pois não posso impedir que ela brinque com outras crianças que têm a boneca). Mas eu posso, como feminista e mãe, pelo menos não reafirmar o status quo e sempre lembrar, nem que seja bem lá no fundo, que outro mundo é possível. Neste Natal não darei uma Barbie de presente.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

A mãe, o trabalho e o shortinho


Texto de Renata Corrêa

A mãe. Sabe a mãe? Aquela. Aquela mãe que imaginamos. A do avental todo sujo de ovo. A da novela. Do filme. Da fila do pão. A mãe, sabe? Essa mãe arquetípica que estamos acostumados a citar. Pois bem, essa mãe imaginária é uma figura estanque. Ela age da mesma maneira que o senso comum acha que ela deveria agir – e essa mãe tem um lugar, um lugar ideal que permeia nossa cultura e que pauta o que uma mãe pode ou não pode fazer e como uma mãe deve agir para ser uma boa mãe, uma boa mulher.

Pois essa “mãe” oprime todas as outras mães que conhecemos. Essa identidade da mãe una não é benéfica nem para as mães que a desejam e se encaixam nela (pois ela é feita para que a mulher falhe no seu propósito) e nem para as identidades femininas não hegemônicas que desejam uma experiência de maternidade.

As mães outras, que não estão no imaginário, que vivem a vida real com os seus filhos e os dilemas do cotidiano vão ser sempre pautadas pela ideia social do que uma mãe deveria fazer.

Essa semana duas celebridades internacionais foram notícia – a top model Gisele Bündchen que postou em seu instagram uma foto sua amamentando a filha Vivian Lake enquanto era maquiada e penteada por um staff e a cantora Beyoncé, que lançou um disco surpresa onde uma das faixas conta com a participação da filha Blue Ivy.

Apesar de serem mulheres ricas, famosas e independentes elas não escaparam do escrutínio da mãe ideal.

Gisele Bündchen foi acusada de não cuidar da filha, de “fazer a unha e deixar o cheiro de acetona na cara do bebê”, e de que ser mãe assim é mole, quero ver ser uma boa mãe tendo que cozinhar uma panela de feijão e ficar com a barriga no tanque. Esses argumentos nada mais são do que a velha crença de que para você ser mãe você deve deixar de ser quem você é, que depois de se tornar mãe a mulher desaparece e o indivíduo se dilui eternamente em paninhos de boca e lencinhos umedecidos. A foto da Gisele Bündchen me deixou encantada, confesso. Para mim é a gênese de como a identidade de mãe se agrega as outras identidades, não as excluindo ou sufocando.


Reprodução Instagram @giseleofficial

 Com a Beyoncé foi um pouco pior. O crítico Thales de Menezes escreveu uma crítica na Folha onde dá a entender que a cantora não poderia ter feito um bom trabalho por ser mãe, chamando a maternidade de “período conturbado” e que para cumprir sua turnê a cantora teria que “arrastar bebê e babás”. Depois ele coloca em cheque a qualidade do álbum e que ela esconderia isso “mostrando as coxas em shortinhos”. Fiquei em dúvida se era crítica musical ou slut shaming gratuito. Afinal as mulheres que se tornam mães não podem fazer um bom trabalho, serem criativas ou sexies – as mães devem se recolher e desonerar a sociedade da participação na criação dos seus filhos e em silêncio aceitar o “peso” e a “dádiva”.


Cena no clipe “Blue”. Reprodução.

Lembro que durante as madrugadas em que amamentava a Liz eu tive a ideia para um livro e eu não tinha o menor tempo ou pique para sentar e escrever durante o dia, mas eu queria muito materializar aquele desejo. E durante essas madrugadas instalei um aplicativo e escrevi “Vacas e Outras Moças de Família” no tecladinho do telefone e nunca me senti tão mãe, nem tão escritora, nem tão mulher. Eu estava ali entregue à minha maternidade, Eu, Renata, compartilhando com a minha filha aquele momento único de entrega e de criação. Sem ser mãe eu jamais teria escrito aquele livro. E escrevendo aquele livro fiquei mais próxima da minha filha e da mãe que eu gostaria de ser para ela.

Mães estão por aí fazendo coisas depois que seus filhos nascem: taxistas-mães dirigem depois de terem filhos (e isso não é um fator de mais de acidentes), cirurgiãs-mães operam (e isso não é um fator a mais de erros médicos), jornalistas-mães escrevem (e isso não faz do jornalismo mais cretino do que já é), manicures-mães continuam fazendo as unhas (e não tiram mais bifes por conta disso) – usando shortinhos, cinta liga, óculos ou capacete essas mães dão de dez a zero na imagem mítica da mãe ovelha, sacrificada, a mãe silenciada pela sociedade machista, a mulher a quem o mundo é negado em detrimento da maternidade utópica-sacrificante e que ainda deve agradecer por essa experiência.

São as mães que ocupando as rua em turnês internacionais, salas de cinema, pracinhas, aviões, pontos turísticos, manifestações políticas, ônibus, sessões de fotos, restaurantes, filas de banco que vão deixar o mundo mais aberto e acessível para quem curte “arrastar o bebê” por aí. Mesmo que para isso precisem rebater uma ou outra crítica machista sobre o lugar que uma boa mulher deve exercer na sociedade.


quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Porque eu tenho medo de que o meu feto seja menina



Recebemos esse texto de uma leitora, que prefere ficar anônima, com uma inquietação que muitas de nós passamos ao nos descobrirmos grávidas. Quantas de nós não achavam que jamais dariam conta de criar uma menina de modo livre e seguro, sem encher a cabecinha dela com os medos e autocensuras que cultivamos ao longo dos anos por sermos mulher? Medo de lidar com a sexualidade dela sem criar traumas, de deixá-la explorar o mundo, sem entrar na paranoia das milhares de agressões que ela pode sofrer apenas por ser mulher. O feminismo nos tem mostrado um caminho de união e luta, mas o mundo ainda não é um lugar tranquilo ou seguro. Segue o texto:

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Pois é,  outro dia descobri que estou grávida. Foi festa para todos, da minha família à dele, o meu filho, os amigos. Só eu que entrei em pânico. E se dessa vez eu não der sorte de ter menino? As primeiras semanas foram desesperadoras, porque sim, eu lá dentro sinto que eu fui muito sortuda de ter tido na minha primeira gravidez, um menino.

No último ano me enxerguei feminista, mesmo não tendo lido todos os livros, mesmo ainda cometendo gafes, sei que sou uma feminista. E mesmo assim morro de medo de estar gerando um feto mulher.

Filho, a meu ver, quando a gente se permite ver, vira um reflexo nosso. Das melhores e piores coisas que somos, vivemos, tememos e sonhamos. Meu filho mais velho, todas as vezes que eu permiti, me escancarou verdades que eu custava ver.  Foram todos aprendizados profundos e em parte doloridos.

E o que essa possível criança mulher pode refletir, simplesmente me apavora.  Eu sofri abusos; as piores foram situações pontuais (aos 7, aos 11, aos 16 e aos 18 anos) que racionalmente e depois de muita terapia, resolvi alguns pontos. Outros, para seguir com a vida, guardei em algum lugar e faço um esforço grande para esquecer quando as lembranças vem à tona numa situação qualquer.

Não sei como lidar nem com a possibilidade de ter uma filha. Será que eu vou entrar numa neura de super proteção? Ou será que o medo de ser impossível ter certeza de que nada irá acontecer à ela vai me paralisar e me afastar? Afinal, será que eu estou preparada para ver esse reflexo diariamente e lidar com ele, será que eu vou conseguir colocar o que aconteceu comigo lá no passado e desapegar desse medo?

Os números não animam, a violência contra a mulher, as noticias, o dia a dia na rua, nada me anima. Meu medo maior do que não conseguir protege-la, é de não conseguir ensiná-la a se proteger, se amar, se defender.

Por enquanto sigo na dúvida, não quero saber tão cedo, talvez só no nascimento.  Até lá, vou me preparando para receber essa pessoinha que virá tão amada, quanto temida.
—-
O FemMaterna quer começar a resposta às inquietações dessa mãe e de todas as outras que veem as barreiras e gaiolas que o machismo impõe a todas as crianças com a nossa Carta de intenções de uma mãe feminista.

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Vamos passear no parque! Mas… cadê o parque?


Texto de Lays Moreira 
Quem me compra um jardim com flores?
Borboletas de muitas cores,
lavadeiras e passarinhos,
ovos verdes e azuis nos ninhos?

Quem me compra este caracol?
Quem me compra um raio de sol?
Um lagarto entre o muro e a hera,
uma estátua da Primavera?

Quem me compra este formigueiro?
E este sapo, que é jardineiro?
E a cigarra e a sua canção?
E o grilinho dentro do chão?

(Este é o meu leilão.)
Leilão de Jardim – Cecília Meireles

É fácil perceber a aproximação do Dia das Crianças. É só ligar a televisão, não importando se é aberta ou por assinatura, e somos bombardeados pelas propagandas direcionadas às crianças no seu dia. Verdadeira metralhadora giratória de consumismo (machismo e sexismo também, mas esse é assunto pra outro post) atingindo em cheio as crianças, vendendo a ilusão de que comprar é felicidade.

Por outro lado, vê-se uma reação crescente a esse movimento comercial. São pessoas que se unem no sentido de combater o consumismo infantil, tanto na coibição do estímulo ao consumo desenfreado – verdadeira batalha de Davi contra Golias, só que com Golias levando a melhor, por enquanto – como na proposição de atividades alternativas para que as crianças não tenham no consumo o foco principal do Dia das Crianças. E um dos refrões que mais tenho visto/ouvido neste caso é o “troquem o presente pelo parque”, normalmente voltado aos pais/cuidadores.

À primeira vista, a ideia é boa. Parques são legais, são espaços verdes, com possibilidade de movimentar o corpo, fazer novos amigos, tomar sol, ouvir o canto dos passarinhos, botar o pé na grama, correr… parques são realmente muito legais. Pena que existam tão poucos. Pena que os que existam sejam, na sua maioria, distantes dos bairros populares. Pena que o transporte público, ruim durante a semana, seja péssimo no final dela, dificultando o passeio das famílias. Pena que.

Na nossa sociedade urbana/capitalista/industrial, os espaços abertos de vivência estão cada vez mais raros. Na construção dos bairros, muitas vezes desordenados, não se pensa nos espaços onde as crianças possam brincar, não há lugar para a praça ou o parquinho, o importante é aproveitar o espaço para as construções, que isso é assunto de gente grande. Até pelo ponto de vista do poder público, que autoriza empreendimentos de olho no dinheiro vindo dos impostos, tirando ouro dos tijolos à la Super Mario (agradecimentos a Deh Capella). Muito provavelmente o shopping que a Turma da Mônica Jovem frequenta foi construído no campinho onde a Turma da Mônica vivia suas aventuras (e imagino: o Cebolinha usa um perfil fake no Face pra chamar a Mônica de baixinha, dentuça e gorducha, o Cascão joga bola na escolinha de futebol, se o pai dele tiver dinheiro, Magali e Mônica se falam via Hang Out ou chat). As construções tomam cada vez mais os espaços livres que ainda existem, saem as bolas e as pipas, entram os corredores e as lojas, as casas, os prédios de apartamentos.

 Foto: Lays Moreira, arquivo pessoal. (Tirada no Parque das Águas, em Campinas. Distante 20Km da residência da autora, inviável para quem não tem carro. Um lugar gostoso de verdade. Pena que.)

Os poucos espaços que existem são, muitas vezes inseguros e mal conservados. Praças com mato alto, brinquedos em mau estado de conservação, falta de segurança, tudo isso afasta os cuidadores e as crianças desses espaços. Entre a liberdade insegura, opta-se por manter a criança em prisão domiciliar, onde as opções muitas vezes estão relacionadas ao consumo, pois consome-se na tentativa de compensar a falta de liberdade. No documentário “Muito Além do Peso” mostra-se o caso emblemático de um menino cuja mãe não tem coragem de deixa-lo brincar no campinho próximo de casa, por temer pela sua segurança. E não tem tempo de acompanhá-lo, pois trabalha todo o dia.

Quantas mães e cuidadores não passam pelo mesmo dilema? Falar em trocar o presente pelo parque, em um contexto onde as opções de lazer estão cada vez mais restritas ao shopping, associando o lazer ao consumo, chega a ser uma piada de mau gosto, mais uma culpabilização para quem cuida. E se levarmos em conta a responsabilização da mãe por todos os aspectos da vida de seus filhos, independente do poder real que ela tenha sobre o contexto, vemos que a briga pelos espaços de convívio seguros e acessíveis é uma luta feminista. É uma luta pelas crianças, sim, mas também pelas suas mães, que carregam muitas vezes sozinhas o peso de escolhas que não existem. Porque não dá para se falar em escolher o parque quando não há parque. Não dá para acusar de se ter optado pelo consumo quando tudo que existe é o shopping. A luta é desleal, e é injusto acusar as mães, os pais, os cuidadores de optarem pelo consumo oura e simplesmente.

De forma alguma eu defendo o consumismo, e acredito ferrenhamente no seu combate. Mas acredito que o foco não deve estar no apelo para que os pais busquem alternativas individuais, mas na cobrança por soluções coletivas: ampliação e disseminação de espaços de vivência, flexibilização de jornada de trabalho tanto do pai quanto da mãe, criação de espaços recreativos públicos, como praças de esporte e centros de arte.

A partir dessas mudanças, (utópicas, eu sei) aí sim, pode-se falar em escolhas individuais. Porque, ao contrário do contexto atual, passa a haver a possibilidade de escolha real. Enquanto isso não acontece, a única opção de lazer possível para muitas famílias são os corredores do shopping, ou a tela da televisão. E bem vindos ao mundo do consumo. Porque os jardins estão cada vez mais raros. E caros.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Encarando com leveza a Síndrome do Ninho Vazio


Texto de Suely Oliveira 

O termo ninho vazio tem sido usado para caracterizar o momento em que o último filho deixa a casa. Antigamente, os textos que descreviam a chamada Síndrome do Ninho Vazio (SNV), geralmente enfatizavam o sofrimento das mulheres, causado pela perda do lugar de “cuidadora”, papel tradicional – e arcaico – atribuído às mulheres.

Eu prefiro entender a SNV como um desconforto emocional do pai e/ou da mãe ao verem seus filhos e filhas deixando a casa, como mostram as autoras mais modernas que estudam o tema. Um sentimento que acomete homens e mulheres – pais e mães, ao se depararem com a nova realidade. Os/as filhos/as crescem e vão cuidar da vida, constituir família ou simplesmente são levados pelo desejo de sair de casa, de manter uma independência financeira, de construir a própria trajetória profissional.

Imagino que cada pessoa vivencia esse período de uma forma particular, que tem a ver com o momento e a fase de vida que cada uma está vivendo. Em muitos casos, por exemplo, o momento em que os filhos estão saindo de casa, coincide com a aposentadoria e com o climatério. Duas fases de muita mudança na vida de uma criatura seja por fatores hormonais ou por questões culturais. Muita gente fala em solidão, em depressão, tristeza. Mas também tenho visto muitas pessoas falando que com a saída dos filhos de casa, passaram a fazer um monte de coisas que não tinham oportunidade de fazer antes, como viajar, estudar, passear, aprender um idioma, fazer seus próprios horários, enfim, não dá pra generalizar.



E eu nessa história? Bem, eu tenho dois filhos. Henrique com quase 28 anos e Júlio, com 23. Não é uma tarefa fácil, educar filhos ou filhas. É uma luta permanente e diária. A sociedade é machista, racista, homofóbica, heteronormativa. Apesar disso, sou muito feliz com o resultado. Eles são duas pessoas incríveis, amorosas, gentis, íntegras, de bom caráter. Sou bem feliz com a maternidade. Aliás, eu tive os filhos que quis ter. Mas isso é outra história, voltemos para a Síndrome do Ninho Vazio.

A minha casa sempre foi um lugar que os amigos, as amigas e depois, as namoradas gostavam de frequentar. Quando eles eram crianças, os amigos vinham passar o fim de semana e a programação era intensa: praia, cinema, teatrinho ou mesmo sessão de vídeo acompanhado de pipoca e refrigerantes. Depois que cresceram a casa continuou um lugar de muitos encontros, além, de liberdade total para trazer as namoradas que sempre foram bem-vindas em nossa casa. Eu amava aquela movimentação. Quando eu me separei do pai dos meus filhos, fiquei com medo que eles decidissem morar com o pai e colocamos essa possibilidade para eles. O protagonismo juvenil não podia ser apenas um discurso, mas uma prática encarada com toda seriedade. Mas eles decidiram continuar morando com a mãe, o que foi motivo de alívio e muita alegria para mim.

Entre 2003 e 2004 eu saí de casa para viver em Brasília. Foi uma decisão bem difícil, mas eles foram as pessoas que mais me incentivaram, pois eu tinha recebido um convite para trabalhar no governo federal, justamente quando Lula foi eleito Presidente da República.

Como muitas mulheres, eu contava com uma trabalhadora doméstica que me deu todo suporte – e a eles – nos quatro anos em que estive morando fora, além do que a minha mãe ainda estava viva e também dava uma força.

Raramente deixei de vir em casa a cada mês, mas precisei tomar algumas decisões para facilitar a vida deles e a minha. Uma delas foi a emancipação de Henrique, que como filho mais velho acabava tendo que assumir algumas tarefas da administração do lar. Foram anos de muita aprendizagem, pra eles e pra mim, com muita coisa boa e outras, nem tanto.

Uma das razões que me levou a voltar pra Recife em 2007 era a preocupação com a saída deles de casa. Eu comentava com as amigas que estava vendo a hora eu chegar e eles estarem de saída, seja da casa ou da cidade. Dito e feito. Em 2009, Henrique e Giovanna se casaram, a minha neta Alice nasceu e eles se mudaram, foram morar perto da minha casa. Mas um ano depois foram morar em Brasília.

Comecei a pensar sobre a Síndrome do Ninho Vazio com a saída de Henrique, que levou junto a minha neta e a minha nora, uma vez que quando Alice nasceu a família morou alguns meses em minha casa. Ficamos, então, eu e Júlio e fomos nos adaptando à nova casa, à nova realidade.

Agora estou me preparando para outra grande mudança. A partir de janeiro de 2014, Júlio vai morar em São Paulo. O mais curioso é que essa nova fase coincide com outras mudanças na minha vida. Voltei a estudar, estou fazendo mestrado, estou com um grupo de estudos em psicanálise porque quero em breve abrir o meu consultório. Além disso, estou me organizando para no ano que vem ficar três meses em Salvador, fazendo mobilidade discente – um estágio de curta duração em um centro de pesquisa para realizar parte do trabalho de dissertação.

Eu sei que vou sentir muita falta do meu filhote, que é um amigo, parceiro e muito querido, mas provavelmente nesse contexto de tanta demanda e novidades a Síndrome do Ninho Vazio vai ser vivenciada de um jeito muito particular, vocês não acham?

Suely Oliveira é uma feminista blogueira, que se diverte nas redes sociais.

Nós e Miriam Carey: a dor da gente não sai no jornal

Texto de Ludmilla Pizarro 

"A dor da gente não sai no jornal."

 Quando li essa notícia a primeira coisa que me veio à cabeça foi o verso do Chico, acima. Miriam Carey foi mãe, como eu e muitas outras, mas a barra dela pesou demais. E a verdade é que a gente sabe como são as coisas quando a barra pesa. Quando uma porta se fecha, quando não se tem grana nenhuma, muito menos ajuda, quando a cobrança é enorme, quando se tem mais uma boca, que não a nossa, para alimentar. Desafio qualquer pessoa que tenha ou cuide de uma criança que nunca tenha perdido uma noite de sono pensando “e se…”


Divulgação

Pois é, muitos “e se” acabaram acontecendo na vida da Miriam Carey. Ela engravidou por acidente, perdeu o emprego (porque nos Estados Unidos mulheres grávidas não têm estabilidade), teve a filha sozinha. Parece um caminho incomum, mas não é. Da situação-limite para a dor, da dor para a doença, da doença para a tragédia. Tudo começa com noites perdidas em função do cansaço e da preocupação, a depressão (pós-parto) se instala, medos antigos e novos se fortalecem mutuamente, os remédios são caros, fortes e muitas vezes incapacitantes. Para um quadro de paranoia ou esquizofrenia é um pulinho, como foi, aparentemente, o caso. Miriam acreditava que o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, se comunicava com ela. Um delírio típico de um quadro psiquiátrico agravado. Mas talvez com algum sentido. Sendo Miriam uma jovem, 34 anos, mulher negra, pode ser que a imagem de Obama lhe desse esperança. Pode ser que dentro de suas alucinações ela pensasse que o presidente negro, que também tem filhos, pudesse compreendê-la e ajudá-la. Mas a verdade é que o Estado norte-americano não dá a menor atenção à mulher que é mãe.

No Brasil a situação não é muito melhor. Quantas Mirians não existem por aqui? Quantas mães negras resistiram a todas as dificuldades e acabaram perdendo seus filhos para a truculência e arbitrariedade das polícias militares? A mesma truculência que fuzilou a Míriam norte-americana com 17 tiros e que não assassinou sua filha de um ano por milagre.

Cada mulher, seja negra, seja mãe, seja trabalhadora, seja paciente psiquiátrica ou consumidora de antidepressivos, tem uma pouco de Miriam Carey em si. Conhece e pressente o risco eminente, de um azar, de uma situação em que o controle se perca, da falta de amparo do Estado. E não digo isso sozinha.

"Vai ter muita gente dizendo que ela estava deprimida por causa da falta de emprego ou outros fatores que nao a maternidade e a gravidez. Mesmo assim acho que a gente, que é mãe, percebe o quão complicado pode ser isso. Ainda mais num país como os EUA, que nem licença maternidade tem, em que tudo é responsabilidade do indivíduo (plano de saúde, licença). Fora que, né, 17 tiros!?! 17 tiros pra matar uma pessoa que estava dirigindo desgovernada. Por que não atiraram no pneu do carro da vítima?- Sou solidária a essa mulher porque sei que ela não é a única mãe que comete atos de desespero. A cobrança social em cima das mães não vê situação econômica, não vê situação social, não considera que mães são mulheres, são gente, não são deusas infalíveis que aguentam qualquer tipo de adversidade. Mães são gente e precisam de apoio da família, do Estado, da sociedade, principalmente em situação de crise econômica, mas não só nesses casos." Amanda Vieira

"Quando eu soube que estava grávida, me senti desamparada. Mesmo com todo o apoio do meu companheiro. Mesmo tendo um emprego garantido. Porque a maternidade nos trás muitas responsabilidades que às vezes a gente não sabe se vai conseguir dar conta. Depois de alguns anos, no meio de um processo depressivo, o que me passava pela cabeça sempre era que eu não estava conseguindo dar conta das minhas obrigações maternas, que qualquer pessoa iria desempenhar o papel de mãe melhor do que eu. Era como se o mundo não precisasse de mim. E se eu não conseguia ser uma boa mãe, nada mais eu iria conseguir fazer direito. Então quando li essa notícia, senti uma empatia imediata, me coloquei no lugar dessa mulher, senti o desespero de se ver grávida e depressiva numa sociedade que não ampara mães. Não consegui conter as lágrimas." Fabiana Nascimento 

"Você joga no Google “Miriam Carey” e a primeira resposta que recebe é “você quer dizer Mariah Carey?”.  Quem raios era Miriam Carey? O silêncio sobre ela, a despeito da forma como morreu, assassinada por uma quantidade absurda de tiros, mostra como são invisíveis as pessoas como ela. Era só mais uma mãe, só mais uma negra, só mais uma mulher, só mais uma pessoa precisando de ajuda. Só mais uma “ameaça” a ser neutralizada. Ela é só mais uma, vai cair no esquecimento conforme a notícia também cair. Cairão todas as Miriam Carey. Até quando?" Deh Capela.