Nesse média metragem a diretora registra momentos seus
com a mãe-avó de noventa anos de idade, e também com o filho que acabara de
nascer. Ela aparece pouco no vídeo, ficando como realizadora e ao mesmo tempo
expectadora das cenas, como se, de fato, tentasse entender sua relação com a
mãe (que a adotara logo depois de nascer, mas que fora chamada de avó durante
todo o filme), ao mesmo tempo em que transita para a maternidade. As cenas
focam-se nos corpos nus, nas mãos que marcam o sinal do tempo – do vivido e do
que ainda há pra viver, da velhice e da primeira infância.
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| Imagem do filme "Tarachime". Divulgação. |
Os seios e a
barriga da avó são registrados detalhadamente, evidenciando a questão do
pertencimento – Naomi que sugara os seios de uma mulher que não a carregara no
ventre, reclama das vezes em que, na adolescência, ouvira os apelos para que
fosse embora caso quisesse. Os diálogos parecem revelar a ambivalência desse
sentimento de partilha e de insegurança, de ser e ao mesmo tempo não ser aquilo
que se espera.
Um dos momentos mais tocantes é o parto de Naomi, vivido
em sua casa, ao redor de uma parteira e pessoas próximas, incluindo a avó-mãe,
e que culmina com o consumo da placenta enquanto ela conversa com seu bebê. A
cena é como um ritual de passagem que a leva à compreensão (ou pelo menos à
disposição em compreender) o que é a maternidade, em como viver a transição
para essa nova vida. Sabemos que Naomi se questiona sobre a vida não só porque
está gerando um filho, mas porque sua mãe-avó descobre-se com câncer e enfim
falece.
Ela mesma se descobre com um nódulo benigno no seio e
sobrepõe as imagens do exame da mãe com sua sessão de ultrassonografia. Enfim,
seu filho, já caminhando, visita o túmulo da bisavó e faz a tradicional
reverência japonesa aos antepassados, nos oferecendo a conclusão de que afinal
a vida não se resume apenas àquele que vem à luz, ao começo de tudo, mas se
refere às interposições de outras vozes, corpos e sentidos que o antecedem.
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| Naomi Kawase |


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