sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Maternagem e feminismo: FemMaterna


Hoje inauguramos um novo espaço de informação e interação, de discussão e aprendizado, e iniciamos uma fase importante para o FemMaterna, grupo de discussão sobre maternagem e feminismo surgido em setembro de 2012 na lista de discussão do Blogueiras Feministas. Lá começamos a conversar antes de nos estabelecermos em uma lista de discussão própria. A partir de janeiro desse ano estivemos presentes no Blogueiras Feministas postando semanalmente. O FemMaterna cresceu e estamos aqui, orgulhosamente, dando mais um passo adiante.

Pai navajo e suas crianças.
Em primeiro lugar um esclarecimento fundamental: somos um grupo formado por homens e mulheres, com filhos ou não, e temos como princípio básico a definição de maternagem (os termos “parents” e “parenting”, usuais em inglês, não possuem equivalente exato na língua portuguesa) como o conjunto de cuidados que podem ser exercidos individual ou coletivamente, por qualquer indivíduo, independente de gênero, orientação sexual, relação de parentesco. Mães, pais, vizinh@s, ti@s, avós, irmãos, amigos maternam.

Embora a maternagem seja idealmente uma responsabilidade de toda a sociedade, a responsabilidade maior recai sobre os ombros das mulheres. E existe nisso uma incoerência. Ao mesmo tempo em que se espera que a mulher tenha filhos, a partir do momento em que ela se torna mãe também passa a estar sujeita a diversas formas de opressão, de apagamento de sua identidade. A mulher envolvida com a maternidade também costuma ser confrontada com uma demanda multifacetada, que ora exige polivalência (profissional de sucesso, independente financeiramente, sexualmente ativa, atendendo às exigências estéticas, mãe dedicada, dona de casa irretocável) e ora cobra a dedicação exclusiva ao lar e à prole. Muitas vezes a maternidade tão cobrada e festejada se torna uma empreitada solitária.

Também é atribuída unicamente à mulher, muitas vezes, a tarefa da educação dos filhos não só no sentido formal, mas também a formação moral e a sociabilização das crianças. “Parece que não tem mãe”, “cadê a mãe dessa criança?” são algumas das frases mais ditas. Ao vencedor as batatas, à mulher a culpa inclusive de criar filhos machistas, de reproduzir modelos de opressão feminina. Para mulher, as batatas são aquelas mais quentes, ou as que estão assando, é o que parece acontecer tantas vezes.


E se uma criança não fosse mais só responsabilidade de sua mãe ou de alguma outra mulher (a avó, a tia, a irmã)? E se a criança fosse um projeto ou uma tarefa (sim, vamos à franqueza, nem toda criança é fruto de planejamento, certo?) a ser desempenhada não só individualmente ou com o cônjuge, e sim por uma rede de cuidados expandida, extrapolando o núcleo familiar mais próximo? E se passássemos a compreender quão revolucionária é a tarefa de criar jovens voltados à solidariedade, à cooperação, ao senso de igualdade e justiça, ainda que seja exatamente isso que se espera de uma mulher (e de mulheres apenas)? E se passássemos a enxergar melhor as implicações da maternagem solidária, coletiva e igualitária para o estabelecimento de uma sociedade melhor?

Estaremos aqui para falar sobre maternagem a partir de um olhar feminista que seja o mais compreensivo, generoso, amplo, inclusivo, democrático e atento possível. Que as vozes sejam múltiplas e sejam ouvidas o mais longe possível. Estaremos aqui junt@s.


Encontro de famílias e professores da comunidade de Upper Arlington, EUA
                                                 

Maternagem feminista é questionar modelos e respostas prontas.
Agnes, mãe de Manuela, 3 anos, e Lígia, 5 meses.

Maternagem feminista é empoderar o papel da mãe para que a ela não sejam negados direitos com base em um recorte de classe, de identidade de gênero e de orientação sexual. E disso decorre que ela ensine aos filhos pelo exemplo.
Danilo Sanches, pai feminista da Maria, 6 anos.

Maternagem feminista é saber que eu posso acarinhar e não preciso bater. Posso libertar, ao invés de restringir. Posso respeitar e não preciso limitar. E mesmo que eu só lute no dia a dia, ainda estou ajudando a fazer um mundo melhor. 
Tâmara, mãe do Miguel, de 2 anos e 4 meses. 

Maternagem feminista é reconhecer que não existe modelo de mãe e que nossos filhos nos ensinam a maternar.
Júlia Rodrigues, mãe da Sofia, 4 anos, do Luiz Eduardo, de2 anos e 6 meses, e da Ana, de 1 ano.

Maternagem feminista é reconhecer que todos temos direitos e obrigações iguais, independentemente da orientação sexual, pois todos podem “maternar/amar”, cuidar e educar, indistintamente.
Janethe Fontes, mãe de Eduardo Felipe, 19 anos, e de Emile Vitória, 8 anos.

A maternagem feminista é crítica e não exclui, inclui. É compreender que as crianças são uma responsabilidade coletiva e que demanda atenção, afeto, proximidade.
Deborah, mãe do Alexandre, de 6 anos.

Maternagem feminista é entender que a maternidade pode e deve ter um papel de subverter os privilégios estabelecidos na sociedade. 
Renata, mãe da Liz de 13 meses

A maternagem feminista pra mim é poder ser pai, completamente, estar próximo dos meus filhos e poder cuidar deles. 
Humberto, pai do Lucas, 14 anos, e da Raquel, 7 anos.

Maternidade feminista é construir uma sociedade igualitária em que as pessoas sejam respeitadas por suas características individuais. 
Cecília, mãe do Lucas, de 19 anos.

Maternidade feminista é a possibilidade de contribuir para uma revolução cotidiana.
Fabiana, mãe da Clarice, 8 anos.

Maternagem feminista é revolucionar fazendo o que meio mundo acredita que seja  conservador. Subverter mesmo!.
Lays,  mãe da Elanor, 7 anos.

Maternidade feminista é lutar pela coletivização da maternagem. 
Carolina Pombo, mãe da Laura, de 4 anos.

Maternidade feminista é permitir que a criança tenha autonomia, compreenda e aceite seu corpo e sua personalidade.
Ludmila, mãe da Teresa de 4 anos.

Maternidade feminista é refletir e aplicar as discussões de gênero na criação de meninos e meninas, em busca de um mundo igualitário.
Carolina Costa, mãe do Pedro - 37 semanas de gestação.


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Imagens:
1- Arquivo Nacional dos EUA, 1972.
2- Ilustração de Beth Scupham, 2013, alguns direitos reservados.
3- Arquivos de Upper Arlington, EUA, 1918.

11 comentários:

  1. Ficou lindo o post, meninas!!! Tá corrido demais aqui no trabalho e nem consegui pensar numa frase pra mim...

    =(

    Força pra gente (e folguinhas no trabalho, também seriam legais...)

    Beijão!

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  2. Demais esse texto inalgural! me sinto super representada, Beijas!!!

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  3. Demais esse primeiro post, vamo que vamo!!! beijas!!!

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  4. Parabéns , espero muitos posts e debates para todo mundo poder aprender um pouco mais sobre a maternagem sem julgamentos e pitacos e que todos possam rever conceitos que tanto atrapalham uma sociedade mais justa e igualitária.

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    1. Bruno, obrigada pela visita, pelo comentário, que bom que gostou! Volte sempre!!

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  5. Adorei! Mesmo não sendo mãe, e nem sabendo se um dia serei, me senti acolhida e incluída pelo blog :-)

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    1. Binha, ficamos muito felizes, viu? A ideia é essa, pensar a maternagem, a liberdade, a igualdade de forma cada vez mais inclusiva é uma meta importante pra nós!
      Volte sempre, beijo!

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