Texto de Raquel Marques
Água mole em pedra dura...
É difícil nadar contra a corrente. Muito. Todo dia tem alguém
querendo "abrir seus olhos" para os fatos de que as coisas não são assim, precisamos olhar o longo prazo, político nenhum presta, todo mundo que propõe coisa nova é burro, o status quo é produto
da evolução das coisas e portanto é o melhor que poderia acontecer, não há nada que possa ser feito para mudar o cenário imediatamente, as pessoas que oprimem estão lá por um desejo do oprimido. Oi?
Assim
foi na militância do parto também. Estou envolvida com isso desde 2001 e
de lá para cá foram tantos avanços, tantas conquistas, tantas famílias
felizes e pessoas que tiveram a chance de nascer com respeito e
dignidade (porque, sim, para horror de muito obstetra, o que se faz nos
centros cirúrgicos por aí muitas vezes beira a indignidade) que eu estou
certa de que o caminho é continuar acreditando que as coisas não são
tão imutáveis como querem nos fazer acreditar. E que nesse caminho nos
indispomos, não tem como. Sinto muito, mas vou continuar.
Ontem
estava chateada, mas é preciso aceitar que defender interesses também é
lidar com desonestidade intelectual, má vontade, corporativismo e medo.
Vamos
adiante porque semana que vem tem o lançamento do filme "O renascimento do
parto", um vídeo brasileiro que já tem calendário para rodar o país e o
mundo. Feito com esforço ativista, com recursos financeiros ativistas,
este é mais um passo e mais uma conquista na mudança de cenário. Que,
sim, já é muito diferente e melhor que em 2001.
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| Foto promocional do filme "O renascimento do parto". |
Para
quem nunca ouviu falar, "O renascimento do parto" foi concebido por
Érica de Paula e Eduardo Chauvet, que fizeram boa parte do trabalho com
recursos próprios. Com o filme quase pronto foi feito um trabalho de captação de recursos para viabilizar sua conclusão que superou todas as
expectativas. A rede ativista colaborou em peso e através de um processo
de crowdfunding foram captados 219% da estimativa inicial, totalizando
R$142.341,00. Além disso outros recursos foram mobilizados, como distribuição, divulgação e tradução, graças ao apoio coletivo. Foi um
esforço colaborativo que gerou um produto muito interessante e que
certamente ajudará muitas mulheres a alcançarem o parto que desejam, poderá instigar muitos médicos a questionarem suas práticas e políticos a
repensarem as políticas públicas de saúde.
O
filme entra em cartaz esta semana em várias cidades do país. No site O Renascimento do Parto você pode assistir ao trailer deste
filme, que pertence um pouco a cada uma das milhares de pessoas que
doaram seu tempo, trabalho, história e recursos para que o que
acreditamos se viabilizasse. Mais uma mostra de que é possível fazer
muito se estivermos dispostos a percorrermos o caminho juntos.
A
mudança, a gente faz um baby step por vez. Dá trabalho, incomoda, mas o
segredo é não dar muita atenção às dores do caminho. Just do it.
Raquel
Marques é ativista em direitos sexuais e reprodutivos, mestranda em
Saúde Pública, mãe do Gabriel e do Bruno e alguém que tem muito mas
dúvidas do que certezas. Que bom!

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