Este post faz parte da Blogagem Coletiva da Semana da Visibilidade Lésbica e Bissexual, organizada pelo True Love.
Como mãe e bissexual, atualmente vivendo com minha companheira, portanto vivenciando toda a questão lésbica do lado bi da palavra, vos digo: ser mãe não torna invisível minha lesbiandade. E vice-versa. E você, pessoa que me lê, precisa se acostumar com isso.
Assim que declarei para a minha família que estava grávida e seria mãe, recebi um caminhão de questionamentos que mulheres solteiras frequentemente recebem assim que comunicam uma gravidez. E se a experiência me valeu de alguma coisa, foi essa coisa que ganhei: o senso comum não tolera moças solteiras grávidas. Bem-vinda à desilusão, bem-vinda ao mundo das mulheres que não poderiam nunca ser mães!
Depois que minha filha nasceu e enfim revelei para algumas pessoas que eu vivia com uma companheira, o questionamento da vez foi: como é que a sua filha vai lidar com isso? Isso o quê, eu perguntei. E ouvi: você vai expor uma criança ao preconceito da sociedade?
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| Silmara, Sofia, Amanda: uma família |
“Como não expor a criança ao preconceito da sociedade?” Acaso alguma criança neste mundo fica livre de todos os preconceitos sociais? Quando uma mulher bissexual/lésbica coloca um filho no mundo, ela está fazendo o quê, alimentando o preconceito do mundo? Daqui a pouco vou começar a ouvir que mulheres negras não podem ter filhos, para não os exporem ao preconceito da sociedade; mulheres trans* não podem ser mães para não exporem os filhos; cegas não podem ter filhos...
Afinal, que pessoas estão autorizadas a terem filhos?
É a sociedade que deve esconder seu preconceito no armário – porque a minha filha já está no mundo. E eu também. E tantas outras mães de diferentes cores, situações sociais, gostos, quadros de saúde... É tão difícil se acostumar com isso? Será mesmo que uma mãe deve ser acusada de egoísmo por “não pensar nos preconceito que o filho irá sofrer”?
Bissexual ou lésbica, não deveria importar! O fato de uma pessoa ser negra, trans*, homossexual ou o que seja deveria importar tanto quanto o fato de eu gostar de brigadeiro. Para mim bastaria isso – que a minha capacidade de ser mãe (ou de trabalhar, ou de agir politicamente, ou de fazer o que eu tenho vontade) não fosse colocada em dúvida por causa da minha lesbiandade.
Direitos sexuais e reprodutivos são direitos humanos. Mas quantas bissexuais e lésbicas se permitem esse desejo de serem mães? Como esse desejo de maternidade está sendo compreendido, reconhecido e validado pela sociedade? O Estado está oferecendo suporte para que esses direitos sejam efetivados?
O que a sociedade tem a aprender com as mães bissexuais e lésbicas é isso: maternidade é um direito humano a ser respeitado. Vai ser mãe aquela pessoa que, livremente, chamar a responsabilidade de mãe para si. Vai ser mãe a pessoa que se sentir à vontade para isso. E convenhamos: não é nada fácil se sentir à vontade pra ser mãe nessa sociedade preconceituosa que quer impor a maternidade para algumas mulheres (impedindo que elas realizem aborto, por exemplo) e vetar para outras, segundo regras não escritas, discriminatórias e violentas. Precisamos rever essas regras.
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Confira abaixo mais textos da Semana de Visibilidade Lésbica e Bissexual:
- O Biscate Social Club também participa da Blogagem Coletiva desde o dia 26/08. Confira o texto de abertura, A biscatagi e a visibilidade lésbica, e a série completa no site.
- No Blogueiras Negras, a Semana de Visibilidade Lésbica e Bissexual também começou no dia 26, com o poema Já li essa bula, de Natalia Soares. No site do grupo você confere todas as postagens.
- O Blogueiras Feministas também participa da Blogagem Coletiva e abriu a semana com texto de Jamil Sierra: Levantai-vos, todas! Não deixe de conferir as postagens da semana toda no blog.


PArabéns! Tenho uma amiga que, logo depois que ela nasceu, a mãe morreu. O pai, não sei pq, não tinha condições de cuidar dela e da irmã, que já tinha uns dez anos de idade. Então a tia a adotou. Tia essa que é lésbica. E posso te dizer, foi a nossa "tia" mais legal de todas as mães! Foi a única q sempre conversou sobre todos os assuntos com a maior naturalidade: sexo, drogas & rock'n roll... Foi e ainda é uma super mãe, que deu uma puta base pra essa minha amiga.
ResponderExcluirSexualidade não define caráter materno. E sim, me lembro dela ter ouvido de pessoas escrotas palavras preconceituosas a respeito da "lesbianidade" da mãe... e ela tirou de letra!
Parabens Amanda por falar do nosso desejo tantas vezes ignorado...
ResponderExcluirExcelente texto, Amanda!
ResponderExcluirBasicamente é isso que você disse: querem obrigar mulheres a serem mães proibindo o aborto e querem proibir outras que desejam ser mães com argumentos baseados em puro preconceito! Arrisco dizer que quem não deveria ser mãe e nem pai são as pessoas com essa linha de pensamento, que parecem só estar no mundo com o objetivo de incentivar ainda mais preconceitos nas mentes das pessoas e dos próprios filhos!
Também sou lésbica, quero ser mãe e exijo ser respeitada por isso!
Beijos!
Oi gente! Desculpe a demora em responder!
ResponderExcluirAgradeço pelos comentários. E vamos todas continuar escrevendo, denunciando, comentando, incentivando umas às outras. Beijos
Amanda